


As Reformas Teológicas do Brasil
Lançadas em 2026 pelo teólogo José Luiz de Sousa Neto, através da CEC Brasil, as reformas teológicas do cristianismo conseguiram alcançar enorme impacto na difusão da Cabala Cristã e dos princípios milenares cristãos resgatados por meio de seu estudo. As mesmas estão detalhadas em seus vários livros publicados pela Editora Dialética, de toda maneira, sempre trazidas de maneira facilitada para que todos possam compreender a mensagem do Reino de Deus.
As reformas possuem quatro eixos:
A Bíblia como aquela que dá testemunho da Palavra de Deus, mas não se confunde com ela.
A natureza misericordiosa de Deus, não vingativa.
O domínio do mal a partir de um olhar profundo interior.
A verdade como a luz do Criador, e não como ideias humanas.
Em seu livro lançado pela CEC Brasil, intitulado “O Evangelho de Mateus – Comentário Expositivo pela Cabala”, e também por meio de artigos públicos, foram defendidos os seguintes pontos da reforma:
Reforma 1 – O domínio do mal a partir de um olhar profundo interior
Quando observamos a história do Cristianismo, percebemos que, alguns anos após a vinda de Jesus Cristo à Terra, sua mensagem começou a ser mal compreendida pelos próprios seguidores. A instituição religiosa que se dizia seguidora de seus ensinamentos acabou se desviando e passou a comercializar a própria fé por meio da venda de indulgências e de outras práticas desumanas. Nesse período, muitos sacerdotes cristãos, já praticantes da meditação e moradores de mosteiros, começaram a perceber as incongruências existentes na fé cristã. Foi então que um deles, chamado Martinho Lutero, o reformador, levantou-se com uma mensagem de reforma, tendo como um de seus principais pontos de defesa a chamada salvação pela graça mediante a fé em Deus.
Tal situação trouxe uma nova reflexão para dentro do Cristianismo. No entanto, com o passar do tempo, tornou-se notável que, mesmo entre os seguidores da Reforma, ainda permaneciam aspectos não compreendidos. Assim, práticas horrendas voltaram a ser cometidas, inclusive o assassinato daqueles que eram chamados de hereges. Nesse ponto da história, surge novamente a necessidade de uma nova reforma, capaz de explicar aos cristãos o que, de fato, significa a salvação pela graça mediante a fé. Digo tudo isso apesar de não ser um cristão católico nem evangélico, mas sim um cristão cabalista.
Uma nova reforma significa explicar às pessoas que a fé nasce no solo do amor, e que este se constitui como um estado integrado da alma, no qual o indivíduo domina o mal a partir de um profundo olhar interior. Se antigamente as pessoas acreditavam que a salvação seria alcançada por meio de práticas externas, hoje muitos acreditam que não precisam realizar nenhuma transformação interior para serem salvos. Ambas as visões estão equivocadas, haja vista que a salvação pela graça nos ensina que somos salvos sem precisarmos realizar obras externas, mas também nos mostra que, sem dominar o mal interiormente, será impossível alcançar a salvação.
A graça se revela a todo momento na história humana. Caim, por exemplo, foi advertido três vezes sobre a necessidade de dominar o mal, o que evidencia que a graça esteve manifestada o tempo inteiro, ainda que ele não tenha sido salvo. Mesmo quando comete um homicídio, a graça se revela no fato de Deus não destruí-lo; contudo, isso não significa que a salvação estivesse nele. A graça continuará se revelando por meio da vinda de Jesus, advertindo outros semelhantes a Caim de que é necessário dominar o mal interiormente. Ainda assim, muitos não compreendem essa mensagem e acabam por matá-lo.
Existe algo que pode ser chamado de graça transformadora, mas ela só pode existir a partir do momento em que o ser humano domina o mal interiormente. Dessa forma, Deus pode guiar esse indivíduo para que seja conduzido a uma contínua transformação interior. Precisamos estar atentos, porque somente somos transformados por essa graça quando nos abrimos para dominar o mal interiormente, por meio de um profundo olhar da alma sobre si mesma.
Reforma 2 – A Bíblia como aquela que dá testemunho da Palavra de Deus
Quando observamos o episódio em que Jesus, ao ler os Profetas, diz: “As Escrituras se cumpriram hoje”, percebemos que ele não se refere à Tanakh (Bíblia Hebraica) como a Palavra de Deus, mas como escrituras humanas que apontavam diretamente para ele. Esse detalhe parece ter pouca importância, mas constitui uma das pedras de sustentação da fé humana, haja vista que o Deus absoluto, ao decidir descer sob a forma humana, aceitou limitar-se temporariamente à esfera da linguagem. Nesse sentido, sua decisão nos revela que a divindade deseja nos ensinar que podemos aceitar nossos limites enquanto seres humanos e que isso nos permite acessar sua luz infinita dentro de nossos corações.
Quando as Escrituras Sagradas são chamadas de “Palavra de Deus”, estamos atribuindo caráter absoluto a pessoas limitadas, que foram apenas instrumentos para revelar suas experiências humanas e transcendentais. Quando dominamos o mal a partir de um olhar profundo para nossa alma, retiramos a idealização sobre o que é ser humano. Nesse sentido, isso também se reflete na nossa relação com nossos pais, que também eram limitados e tinham suas histórias pessoais, as quais talvez os impedissem de nos oferecer o amor necessário para que pudéssemos encontrar nosso valor pessoal. Esse olhar profundo, às vezes, torna-se mais difícil, haja vista que muitos de nós carregamos memórias de uma infância sem amor. Olhar para dentro envolve perceber tudo aquilo que, de fato, ocorreu e faltou, mas esse é um processo necessário, pois nos permite transformar nossa relação com essa falta ou com o próprio inconsciente.
Os homens e as mulheres que escreveram os livros da Bíblia eram limitados. Carregavam uma história marcada por muitas falhas na relação com o outro, razão pela qual muitos cometeram assassinatos, traições e crueldades. No entanto, o que Deus desejava deles era que realmente olhassem para o seu interior, buscando uma melhor relação consigo mesmos e com o próximo. O próprio Jesus teve dificuldades em transmitir sua mensagem aos discípulos, de modo que muitos deles, mesmo depois de alguns anos, ainda não compreendiam plenamente o que o Mestre desejava lhes ensinar. Mesmo após sua partida, muitos continuavam insistindo em uma prioridade comportamental, influenciados pela religião anterior. Entretanto, a mensagem de Jesus priorizava um estado adequado da alma, algo muito maior do que apenas o comportamento. O próprio Jesus ensinou que não basta deixar de matar, mas também não devemos guardar mágoas do outro na alma. Cumprir mandamentos sem um estado adequado da alma é algo inútil e sem valor. Ao adentrarmos o domínio de nossa alma, permitimos que a lei do amor seja gravada em nossos corações, proporcionando-nos uma verdadeira leveza espiritual. A Palavra de Deus não se desacopla de quem Ele é, diferentemente da palavra humana!
Podemos notar que o próprio Jesus falou sobre o erro dos religiosos de sua época ao colocarem suas tradições e escritos humanos acima do mandamento direto dado por Deus no Sinai, a Palavra de Deus. Ainda nesse mesmo texto do Novo Testamento, Jesus deixa claro que Moisés já havia falado sobre isso em seus escritos, mostrando que o que está registrado no texto dá testemunho da Palavra de Deus, mas não se identifica com ela. A Palavra de Deus procede diretamente d’Ele, pois Deus e sua Palavra formam uma unidade. É, inclusive, a Palavra de Deus que sustenta todo o universo, porque ela possui poder criador. A própria criação foi realizada por meio de sua Palavra, quando Deus disse: “Haja”.
A Bíblia cristã foi formada por meio de uma criteriosa seleção de escritos, considerando sua compatibilidade e coerência com o conjunto das Escrituras. Além disso, ela aborda não apenas questões espirituais, mas também diversos aspectos da experiência humana. Muitas de suas passagens tratam de temas comuns da vida, como o sexo, a paixão, o amor, a família, o trabalho, a justiça e o sofrimento, revelando que seu conteúdo dialoga com a existência humana em toda a sua complexidade. No entanto, a Bíblia não deve ser transformada em objeto de idolatria, pois seu propósito é dar testemunho de Deus e conduzir o ser humano a Ele, e não ocupar o lugar que pertence exclusivamente ao próprio Deus.
Reforma 3 – Alterando a percepção da natureza de Deus
Há alguns dias, eu acompanhava um jornal, e determinado comentarista jornalístico da TV no Brasil questionava algo sobre o Cristianismo que talvez ele nem sequer saiba da importância de sua colocação, pelo que talvez fosse censurado por muitos religiosos que não saberiam respondê-lo e ficariam, de certa forma, atônitos. Mas eu, pessoalmente, acredito que essas indagações são muito válidas para que possamos tentar entender e compreender, de fato, a essência do Deus em que acreditamos dentro do Cristianismo.
A colocação dele girava em torno da imagem de um Deus tirano e mesquinho do Antigo Testamento, apto a destruir, julgar e cobrar, segundo sua visão, em contraste com a figura de um Deus generoso, misericordioso e perdoador no Novo Testamento. Segundo ele, as religiões cristãs focaram nesse Deus do Antigo Testamento, o que trouxe um sufocamento e uma perda de tranquilidade e paz por parte dos cristãos.
Para tentar explicar essa questão, precisamos entender que o Deus do Antigo Testamento era o mesmo Deus do Novo Testamento, afinal de contas, só existe um Deus. A grande questão é que o Deus do Antigo Testamento tentava se revelar aos homens em uma comunicação vertical (de cima para baixo), mas foi realmente muito incompreendido por eles, porque estes achavam que suas falas sempre vinham acompanhadas da natureza da relação que tinham com seus pais, sendo, assim, incapazes de entender o amor divino e sua preocupação com o resgate da essência humana, sempre acreditando que esse Deus priorizava regras e interditos proibitórios.
Quando Deus estabelece uma lei no Sinai, apenas o estava fazendo diante da desapropriação humana, pois, sem isso, os mesmos iriam acabar se destruindo e levando o projeto de Deus na Terra à destruição total. Nesse sentido, enquanto Deus tentava ensiná-los sobre o retorno à essência da alma, eles sempre o viam como alguém que cobrava algo relacionado ao externo, ao aparente e ao comportamental.
A destruição de cidades e lugares relatada na Bíblia ocorreu mediante uma tentativa de resgatar o projeto de humanidade, não como punição, mas como um último recurso para recuperar a sociedade humana. Percebemos que toda a maldade humana se revela diante do elevado grau de desapropriação, da falta de amor humano e, portanto, do não reconhecimento dos instintos humanos, o que torna o indivíduo inapropriado para o convívio em família e em sociedade. Quanto mais acreditavam em uma severidade divina e humana, mais esses homens e mulheres se tornaram carrascos de si mesmos e dos outros, com uma grande dificuldade na relação com o outro e com o próprio inconsciente, tratando-se de maneira rude e observando apenas aquilo que julgavam serem seus defeitos de alma, mas que o Criador jamais criaria, pois tudo o que Ele faz é perfeito.
Se queremos uma nação com pessoas criativas e prósperas, precisamos rever nossa relação interior e perceber que o projeto de Deus é perfeito, que podemos celebrar nossa vida e a essência divina que possuímos dentro de nós. Quanto maior a desapropriação, mais as pessoas tendem a se tratar mal e somente se respeitam mediante objetos externos (dinheiro, diplomas, bens etc.). Ao olharmos para o Filho de Deus, percebemos que Ele não possuía esses atributos externos; ao contrário, veio de maneira simples nos entregar a mensagem de salvação.
Reforma 4 – Entendendo o que é a verdade!
Ao estar diante de Pôncio Pilatos, o Mestre dos Mestres foi questionado com uma pergunta filosófica: “O que é a verdade?”. Essa pergunta abre para os cristãos atuais a possibilidade de entender, de fato, algo que talvez, nos últimos dois mil anos, nem todos os cristãos tenham entendido e que as religiões cristãs majoritárias ainda não compreenderam, mas sobre o qual ainda podem refletir.
A verdade não é um conjunto de conhecimentos teológicos, tratados, confissões de fé ou doutrinas que fundamentam religiões humanas. Nesse sentido, quando são tratadas como a verdade, fundamentam grupos que pensam de forma semelhante, mas nunca, de fato, constituem um corpo místico. Jesus Cristo fundou uma estrutura invisível chamada de “igreja”, a qual é constituída pela comunhão de almas que possuem um estado adequado e que se integram em sua própria essência. Isso fica claro quando a Bíblia diz: “Aonde estiverem dois ou três, em meu nome, ali eu estarei”*. Isso não se traduz somente em um ajuntamento de pessoas, mas em uma união de desígnios entre almas que se alinharam à luz do Criador a partir do domínio da desintegração da alma, integrando tanto almas que ainda estão na Terra física quanto aquelas que já partiram para o mundo da eternidade. Qualquer instituição física religiosa terá de ter suas premissas teológicas para ensinar, mas, se ela não ensinar, de fato, sobre a necessidade de dominar a desintegração interior por meio de um olhar profundo da alma, jamais poderá promover as condições para que os indivíduos sejam uma igreja ou um corpo místico. Vejamos que nenhuma instituição física pode conseguir que seus indivíduos façam parte da igreja, porque essa é uma condição possibilitada pela decisão de cada indivíduo a partir de uma posição subjetiva da alma.
No mundo dos seres humanos, a formação de grupos se dá a partir da coadunação de pensamentos semelhantes, mas a igreja não é um grupo humano normal; ela tem uma constituição na verdade, e não no pensamento ou no ensinamento de doutrinas intelectuais. A verdade não respondeu a Pilatos sobre sua pergunta porque ela já estava diante dele! Em grupos humanos, as pessoas se ajuntam para suprir suas necessidades de amor, acolhimento e pertencimento, pelo que, muitas vezes, essas necessidades se tornam maiores que o próprio discernimento das pessoas sobre se aquilo que de fato está sendo anunciado está alinhado com a verdade. A verdade só pode ser encontrada por algo que está além do intelecto; ela é a luz do Criador. O próprio Jesus ensinou que Ele é a luz do mundo.
Ser cristão não envolve pertencer a uma religião, mas pertencer a um corpo místico criado com uma ideia de boa convivência com o outro e com Deus. Muitos fazem parte de religiões, mas não fazem parte da igreja. Muitos cristãos não pertencem a uma religião e fazem parte da igreja. Assim como um casamento não pode, de fato, ocorrer por uma coadunação de ideias ou por uma combinação de gostos, mas somente por meio de um estado adequado das almas e de inteira comunhão.
Infelizmente, por ter sido mantida uma teologia equivocada por milênios, quase todos os conceitos do Cristianismo ficaram equivocados, principalmente os relacionados ao pecado e à iniquidade, pelo que afetaram enormemente a vida psicológica, sexual e emocional dos indivíduos, principalmente daqueles que não receberam uma maternagem suficiente. Em meu livro Cristianismo.exe, trabalhei uma grande parte da reformulação desses conceitos, algo inédito no mundo, visando permitir que os indivíduos passem pelo processo de individuação e possam viver uma fé para além da opinião alheia, mas verdadeira e real. Ali são trabalhados de forma mais profunda esses temas, os quais possibilitarão que nosso povo consiga curar casos graves causados pelo Cristianismo interpretado de maneira equivocada, principalmente aqueles relacionados aos próprios líderes dessa religião. Espero também que esse trabalho seja continuado pelos cristãos, até porque uma religião, seja qual for, deve estar sempre aberta para aprender com seus próprios erros e a aprender algo novo a cada dia, visando à sua própria evolução.
