Quando observamos o episódio em que Jesus, ao ler os Profetas, diz: “As Escrituras se cumpriram hoje”, percebemos que ele não se refere à Tanakh (Bíblia Hebraica) como a Palavra de Deus, mas como escrituras humanas que apontavam diretamente para ele. Esse detalhe parece ter pouca importância, mas constitui uma das pedras de sustentação da fé humana, haja vista que o Deus absoluto, ao decidir descer sob a forma humana, aceitou limitar-se temporariamente à esfera da linguagem. Nesse sentido, sua decisão nos revela que a divindade deseja nos ensinar que podemos aceitar nossos limites enquanto seres humanos e que isso nos permite acessar sua luz infinita dentro de nossos corações.
Quando as Escrituras Sagradas são chamadas de “Palavra de Deus”, estamos atribuindo caráter absoluto a pessoas limitadas, que foram apenas instrumentos para revelar suas experiências humanas e transcendentais. Quando dominamos o mal a partir de um olhar profundo para a nossa alma, retiramos a idealização sobre o que é ser humano. Nesse sentido, isso também se reflete na nossa relação com nossos pais, que também eram limitados e tinham suas histórias pessoais, as quais talvez os impedissem de nos oferecer o amor necessário para que pudéssemos encontrar o nosso valor pessoal. Esse olhar profundo, às vezes, torna-se mais difícil, haja vista que muitos de nós carregamos memórias de uma infância sem amor. Olhar para dentro envolve perceber tudo aquilo que, de fato, ocorreu e faltou, mas esse é um processo necessário, pois nos permite transformar nossa relação com essa falta ou com o próprio inconsciente.
Os homens e as mulheres que escreveram os livros da Bíblia eram limitados. Carregavam uma história marcada por muitas falhas na relação com o outro, razão pela qual muitos cometeram assassinatos, traições e crueldades. No entanto, o que Deus desejava deles era que realmente olhassem para o seu interior, buscando uma melhor relação consigo mesmos e com o próximo. O próprio Jesus teve dificuldades em transmitir sua mensagem aos discípulos, de modo que muitos deles, mesmo depois de alguns anos, ainda não compreendiam plenamente o que o Mestre desejava lhes ensinar. Mesmo após sua partida, muitos continuavam insistindo em uma prioridade comportamental, influenciados pela religião anterior. Entretanto, a mensagem de Jesus priorizava um estado adequado da alma, algo muito maior do que apenas o comportamento. O próprio Jesus ensinou que não basta deixar de matar, mas também não devemos guardar mágoas do outro na alma. Cumprir mandamentos sem um estado adequado da alma é algo inútil e sem valor. Ao adentrarmos o domínio de nossa alma, permitimos que a lei do amor seja gravada em nossos corações, proporcionando-nos uma verdadeira leveza espiritual. A palavra de Deus não se desacopla de quem ele é, diferentemente da palavra humana!
Podemos notar que o próprio Jesus falou sobre o erro dos religiosos de sua época ao colocarem suas tradições e escritos humanos acima do mandamento direto dado por Deus no Sinai, a Palavra de Deus. Ainda nesse mesmo texto do Novo Testamento, Jesus deixa claro que Moisés já havia falado sobre isso em seus escritos, mostrando que o que está registrado no texto dá testemunho da Palavra de Deus, mas não se identifica com ela. A Palavra de Deus procede diretamente d’Ele, pois Deus e a sua Palavra formam uma unidade. É, inclusive, a Palavra de Deus que sustenta todo o universo, porque ela possui poder criador. A própria criação foi realizada por meio de sua Palavra, quando Deus disse: “Haja”.
A Bíblia cristã foi formada por meio de uma criteriosa seleção de escritos, considerando sua compatibilidade e coerência com o conjunto das Escrituras. Além disso, ela aborda não apenas questões espirituais, mas também diversos aspectos da experiência humana. Muitas de suas passagens tratam de temas comuns da vida, como o sexo, a paixão, o amor, a família, o trabalho, a justiça e o sofrimento, revelando que seu conteúdo dialoga com a existência humana em toda a sua complexidade. No entanto, a Bíblia não deve ser transformada em objeto de idolatria, pois seu propósito é dar testemunho de Deus e conduzir o ser humano a Ele, e não ocupar o lugar que pertence exclusivamente ao próprio Deus.
Um abraço e boa semana!
JOSÉ LUIZ DE SOUSA NETO
 

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